O Papel da Universidade
Que caminho devemos seguir diante da atual situação?
A reflexão para uma resposta segura e objetiva a essa questão nos remete à história. No passado, profundas transformações advieram de ações focadas. A que vamos discutir agora, e que tem relação direta conosco, é a seguinte: Como nações como a Espanha e Inglaterra dominaram o mundo a partir do Séc. XVI, se, anteriormente a isso, a Europa fora dominada pela Idade das Trevas, enquanto que a China experimentou, no mesmo período, um desenvolvimento tecnológico invejável? A resposta a essa questão é muito objetiva. Na Europa medieval ocorreu algo ímpar no mundo: a criação da Universidade.
A Universidade foi criada na França, no Séc. XIII, para estudar os universalia, conceitos abstratos que pouco tinham a ver com a vida cotidiana, ou seja, tratava-se do conhecimento básico, puro. A importância do conhecimento básico, assim, fica claramente delineada. A análise dos projetos de pesquisa da UFMT dos últimos cinco anos demonstra que quase a sua totalidade tem foco em questões regionais. A atenção a tais questões é importantíssima, mas o exagero nessa orientação nos impõe limites com relação à própria qualidade de nossa pesquisa e tem reflexo, já visível, na qualidade de nossos cursos de graduação e pós-graduação.
Por outro lado, o sucesso da universidade no fomento ao desenvolvimento na Idade Moderna teve outro componente: a universidade incorporou, na sua estrutura, o conhecimento pragmático, não acadêmico, construído entre os artesãos da população. A figura acima (um detalhe da capa do livro Ética, de Aristóteles, com tradução de Jean Buridan (1295-1363)) ilustra bem isso. Mas as universidades, e dentre elas, a UFMT, devido a uma política conjuntural, estão perdendo a sua capacidade técnica. Basta olhar para as nossas paredes rachadas, as nossas goteiras, o nosso verde e nossos gastos com energia para perceber nitidamente isso.
Ademais, o nosso distanciamento em relação ao conhecimento pragmático faz parte de uma conjuntura maior, constituída no âmbito do afastamento entre a universidade e a sociedade. Hoje, a sociedade não nos vê mais como algo tão importante, o que se manifesta na falta de apoio às nossas greves. É necessário, portanto, um movimento de reaproximação que indiscriminadamente estabeleça relações com todos os segmentos da sociedade, um movimento apartidário e que não seja uni-ideológico, que avance, nos integrando ao setor produtivo, tão necessitado de conhecimento básico, e, igualmente, aos movimentos sociais, plenos em conhecimento pragmático.
Como fazê-lo? Propondo, assumindo um papel proativo no processo de desenvolvimento do país. A UFMT e as universidades brasileiras, de um modo geral, têm assumido uma postura respondente a demandas da esfera governamental. Basicamente, nós atendemos aos editais externos, mas não estamos assumindo o papel de proponentes, apontando caminhos para a melhoria da condição de vida da população. Vamos fazê-lo. Vamos resolver os problemas cotidianos que nos afligem, vamos reparar os nossos prédios, vamos resolver os nossos problemas crônicos de saneamento, internet, sistema acadêmico, conforto, minimizar conflitos pessoais com os colegas e vamos nos debruçar sobre o nosso real papel: o de estabelecer políticas e formar bem os nossos profissionais. Vamos fazer. Vamos recuperar o sentimento de estarmos engrandecidos por fazer parte da UFMT.

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